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Resiliência no setor marítimo: como transformar adversidade em desempenho sustentável a bordo

Resiliência não é virtude individual nem retórica motivacional; trata-se da capacidade sistêmica de antecipar, responder, aprender e monitorar sob pressão. No mar, configura uma arquitetura organizacional que preserva vidas, ativos e reputação. Em termos econômicos, a resiliência organizacional protege ativos, cronogramas e reputação, reduz perdas por incidentes evitáveis e estabiliza produtividade. Este artigo conecta normas internacionais, gestão de fadiga e cibersegurança a práticas de bordo para elevar segurança, produtividade e desempenho.

 

    A tensão por cumprir janelas estreitas de manutenção, prazos logísticos que comprimem a rotina, operar com tripulações enxutas e manter padrões técnicos elevados expõe organizações e pessoas a um denominador comum: a variabilidade operacional. Tratar resiliência como virtude individual do tripulante é insuficiente, porque a maioria dos eventos críticos emerge de interações entre pessoas, tecnologia, processos e contexto. Logo, a questão central não é quão forte é o indivíduo, e sim quão preparada está a organização para antecipar, absorver, adaptar e aprender em condições mutáveis. Nesse contexto, resiliência deixa de ser atributo psicológico individual e torna-se propriedade do sistema de gestão, isso implica reduzir a dependência de “heróis individuais” e arquitetar estruturas capazes de suportar decisões e ações sob estresse sem colapsar. A literatura de engenharia de resiliência organiza essa capacidade em quatro potenciais que se reforçam mutuamente: antecipar (prever trajetórias de risco), monitorar (observar margens e sinais de degradação), responder (adaptar com agilidade e segurança) e aprender (converter desvios em melhoria verificável). Sem essas bases, a variabilidade converte-se em vulnerabilidade; com elas, a adversidade torna-se insumo de aperfeiçoamento contínuo, com impacto direto sobre confiabilidade, produtividade e moral de equipe.

    A mudança de foco traz consequências práticas. Escalas, projeto do trabalho, interface homem-máquina, coordenação entre bordo e terra, políticas de fadiga, cibersegurança, gestão de mudanças e aprendizagem pós-evento precisam operar como um sistema integrado. Isso reduz a dependência de heróis e distribui a capacidade adaptativa por camadas: procedimentos realmente utilizáveis, comunicação clara, buffers de tempo e redundâncias críticas. Em termos econômicos, a resiliência organizacional protege ativos, cronogramas e reputação, reduz perdas por incidentes evitáveis e estabiliza produtividade.

    A tese deste artigo é direta e objetiva: resiliência eficaz no setor marítimo resulta da soma entre desenho organizacional e práticas operacionais que tornam o sistema capaz de ajustar seu funcionamento antes, durante e depois de condições não previstas. Não se trata de um programa motivacional, tampouco apenas compliance, mas sim uma arquitetura do sistema de gestão em relação à capacidade de desempenho sob variabilidade.

    Primeiro, a base regulatória já reconhece fatores humanos e bem-estar. Do ponto de vista normativo, sistemas navegam melhor do que indivíduos isolados, em consequência disso, a resiliência organizacional começa por uma base que exige sistemas de gestão, não slogans motivacionais. A Convenção do Trabalho Marítimo (MLC) de 2006 reconhece a fadiga como risco que afeta a segurança da navegação e a integridade do navio, sendo assim, consolida direitos mínimos de trabalho, repouso, atendimento médico e prevenção de acidentes, que são pré-condições para qualquer capacidade adaptativa sustentada. A fadiga é vetor clássico de fragilidade. Em 2019, a Organização Marítima Internacional (IMO) consolidou orientações que relacionam fadiga, dotação, licenças e organização do trabalho; mais recentemente, reforçou o foco em horas de trabalho, violência e assédio, reconhecendo que fatores psicossociais degradam a segurança. Tais diretrizes descrevem causas, consequências e medidas de mitigação por parte de todos os atores (projetistas, autoridades, companhias, comandantes e tripulantes) e estruturam responsabilidades por módulos reconhecendo impacto da fadiga na segurança, saúde, meio ambiente e operação. Implementar resiliência sem tratar essas bases é construir sobre areia. Ao mesmo tempo, o Código Internacional para o Gerenciamento da Operação Segura de Navios e para a Prevenção da Poluição (ISM Code) estabelece um padrão internacional para gestão segura e prevenção à poluição, estruturando responsabilidades, procedimentos, verificação e melhoria contínua. O ISM deve operar como plataforma de melhoria contínua, em que não conformidades alimentam ações corretivas com prazos e responsáveis definidos, e a análise de riscos é atualizada por dados reais de operação.

    Quando esse arcabouço é vivo e internalizado além da conformidade documental, estabelece-se um circuito de feedback entre bordo e terra que identifica desvios antes de se tornarem incidentes. Todavia, conformidade não equivale a desempenho. Sem mecanismos de feedback e aprendizado, manuais não atravessam a porta da casa de máquinas. Organizações que tratam tais controles como “papelada” perdem informação vital sobre capacidade real. A integração dessas exigências regula não somente a conformidade, mas a capacidade efetiva de absorver variações de carga, clima e falhas técnicas sem sacrificar decisões críticas. Essa articulação assegura condições humanas indispensáveis ao desempenho, reduzindo fontes estruturais de erro relacionadas à fadiga e à sobrecarga cognitiva. O resultado, quando aplicado conscientemente, é uma operação menos dependente de esforços extraordinários individuais e mais apoiada em processos que absorvem variabilidade com segurança.

    Programas de “resiliência” que ignoram esse vínculo, terminam por exigir estoicismo do indivíduo enquanto mantêm escalas inviáveis, ambiente organizacional degradável, manutenção reativa e interfaces confusas. Em contraste, a gestão da fadiga orientada por evidência integra políticas de escalas, monitoramento de sinais, redistribuição de tarefas e auditorias que verifiquem prática real, não somente registros. Estudos demonstram que riscos psicossociais e organizacionais se combinam a bordo. Revisões sistemáticas identificam associações entre longas jornadas, turnos irregulares, sono inadequado, coesão de equipe deficiente e baixa percepção de suporte gerencial com piores desfechos de saúde mental. Esses fatores degradam atenção, tomada de decisão e coordenação de tarefas, aumentando a propensão a incidentes. Portanto, resiliência inclui desenho de escalas, qualidade do descanso e qualidade das relações de trabalho.

    A variabilidade contemporânea inclui a superfície digital. Ciberincidentes em sistemas de TI e OT afetam navegação, carga e segurança. Guias técnicos e estudos de mercado recentes priorizam segmentação de redes, planos de resposta, testes e exercícios anuais para fortalecer a ciber-resiliência. Incorporar essa camada à gestão de risco evita que um evento digital se propague para consequências físicas e financeiras. A tecnologia precisa servir à decisão, não ampliá-la em complexidade. Interfaces que multiplicam telas, camadas de menu e alarmes concorrentes prometem “controle total”, mas exigem mais memória de trabalho, mais trocas de contexto e mais decisões em menos tempo, ampliando o risco de modo confuso e de supervisão complacente. A automação, assim, aumenta a dependência de vigilância humana justamente quando a torna mais difícil. Tecnologia representa progresso apenas quando simplifica trajetórias decisórias, prioriza sinais críticos, reduz entradas manuais e transfere esforço de processamento do operador para o sistema, com métricas explícitas de redução de passos, de alarmes e de tempo para concluir tarefas essenciais.

    Do ponto de vista de governança, isso implica traduzir princípios em mecanismos: clarificar prioridades operacionais, tornar margens de manobra visíveis, alinhar objetivos de segurança, produtividade e manutenção, e mensurar adaptação bem-sucedida, não apenas ausência de acidentes. Em termos culturais, significa sair do teatro do indicador para promover relatos francos de quase-erros e fadiga, sem punições injustas, de modo a ampliar a inteligência coletiva do sistema.

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    A dimensão humana exige uma cultura de segurança viva que reconheça a saúde mental como variável operacional. Pessoas diferem em experiência, estado psicofisiológico e motivação, e procedimentos precisam ser sensíveis a essas diferenças. Empresas que incentivam reporte sem culpa, revisam permissões de trabalho com foco na tarefa real e treinam a supervisão para observar sinais de risco emergente tendem a reduzir a lacuna entre “trabalho prescrito” e “trabalho real”. Essa cultura decorre de liderança consistente, revisão pós-atividade e pequenos rituais diários que constroem memória organizacional.

    No plano cognitivo, estudos demonstram que riscos psicossociais e organizacionais se combinam a bordo. Revisões sistemáticas identificam associações entre longas jornadas, turnos irregulares, sono inadequado, coesão de equipe deficiente e baixa percepção de suporte gerencial com piores desfechos de saúde mental e a decisões mais pobres. Em operações críticas, isso se traduz em maior tempo para detectar anomalias e menor qualidade de coordenação em passadiço e casa de máquinas. O custo é acumulativo e invisível até virar quebra de barreira. Recentemente, dados alarmantes apontam prevalências elevadas de sintomas depressivos e ansiosos em marítimos, com percentuais relevantes de ideação suicida. Esses fatores interferem negativamente na capacidade de atenção, comunicação, tomada de decisão e coordenação de tarefas, aumentando a probabilidade de acidentes em até 2 vezes. Programas efetivos são compostos por triagem psicossocial, acesso a apoio remoto, design de trabalho que priorize a qualidade das relações de trabalho, minimizando o isolamento e políticas claras de descanso e conectividade. Tratar o tema como parte da gestão de risco amplia a confiabilidade e o desempenho do sistema operacional, reduzindo o custo invisível do presenteísmo.

    Quando escalas comprimem repouso e buffers desaparecem, aumentam erros de vigilância, atrasos em manobras e retrabalho de manutenção. A fadiga eleva o risco de incidentes com danos a pessoas, ativos e meio ambiente. Diretrizes internacionais reconhecem explicitamente esse encadeamento entre fadiga e segurança operacional. Custos emergem em seguros, multas, prazos perdidos, horas extras e imagem. A ausência de políticas de bem-estar coerentes com a MLC 2006 produz rotatividade, dificuldades de retenção e queda de coesão de equipe. O resultado financeiro aparece em gastos de recrutamento e treinamento, perda de produtividade e menor confiabilidade de entrega. Sistemas que não cuidam do básico exigido pela norma tornam-se frágeis a estressores previsíveis.

    A teoria sobre resiliência a bordo importa por três razões. Primeiro, oferece critérios diagnósticos auditáveis: o sistema de gestão prevê trajetórias de risco? Monitora margens críticas? Responde com flexibilidade? Aprende de modo verificável? Segundo, explica paradoxos operacionais: se “tudo era conforme”, como ocorreu o incidente? Terceiro, orienta investimento: em vez de adquirir controles ou softwares genéricos, fortalecem-se suportes ao desempenho adaptativo que realmente reduzem eventos severos e perdas. A pergunta passa a ser “como estender a adaptabilidade sem entrar em depleção?”, o que envolve arquitetura de margens, monitoramento de saturação e coordenação entre camadas (bordo–terra).

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    Para desmistificar, convém separar conceitos. Robustez é resistir sem mudar; redundância é dispor de recursos extras; confiabilidade é executar como especificado; resiliência é ajustar o funcionamento para manter metas essenciais diante de variabilidade. Na prática, um navio pode ser robusto a certas falhas e pouco resiliente a situações críticas não previstas. A distinção entre Safety-I e Safety-II explicita essa mudança. Safety-I define segurança como ausência de falhas e investiga “o que quebrou”. Safety-II entende segurança como a habilidade de atingir resultados desejados sob variabilidade e investiga “como as pessoas fazem dar certo diariamente”, ampliando a capacidade de adaptação. Essa mudança é crucial porque a maioria dos acidentes em sistemas complexos decorre do acúmulo de pequenas adaptações e pressões locais, não de um único ponto de ruptura. Com Safety-II, quase-acidentes deixam de ser mera estatística e torna-se matéria-prima de aprendizado estruturado.

    O princípio ETTO (Efficiency–Thoroughness Trade-Off) complementa esse quadro: pessoas e organizações trocam continuamente minuciosidade por velocidade ou vice-versa. Gestão madura não moraliza essa oscilação; estabelece limites de carga, tempos de recuperação e prioridades claras para evitar “teatro de KPI” e prevenir a deriva silenciosa para práticas arriscadas. Em paralelo, a teoria de “graceful extensibility” aprofunda o debate ao reconhecer capacidades finitas e fronteiras de adaptação: sob surpresa, alguns sistemas colapsam, enquanto outros estendem sua resposta redistribuindo cargas, simplificando metas e mudando de modo de operação. A meta é clara: ampliar a adaptabilidade frente à algo inesperado sem esgotar reservas críticas, exigindo buffers reais, interfaces decisórias simples e coordenação firme entre bordo e terra.

    Há uma certa confusão entre conformidade e desempenho: relatórios impecáveis não significam sistemas resilientes se não houver capacidade de adaptação em campo. Variabilidade é inevitável em sistemas sociotécnicos; por isso, o foco de gestão precisa evoluir do “manual” para “projetar apoios para o ajuste seguro”. Pessoas adaptam o trabalho continuamente para lidar com incertezas, e a qualidade desses apoios — margens, informação útil em tempo, modos degradados claros e coordenação entre camadas — determina se a adaptação preserva ou estreita as margens de segurança. Sucesso e fracasso compartilham causas: as mesmas microdecisões que permitem uma manobra eficiente em condições adversas podem, sob saturação ou metas estreitas, degradar a consciência situacional. Endereçam-se práticas que observem mudanças efetivas após lições aprendidas. Cabe destacar, a cultura de culpa, que bloqueia o reporte de sinais precoces e ações de mitigação de riscos, bem como a normalização da fadiga crônica. Organizações que não aprendem com investigações repetem os mesmos padrões. Órgãos de investigação publicam lições recorrentes sobre fadiga, consciência situacional e supervisão. Ignorá-las preserva vulnerabilidades e perpetua perdas. Resiliência exige institucionalizar o aprender, não apenas arquivar relatórios. Por fim, não basta aprender com falhas; é indispensável estudar o trabalho que “dá certo” todos os dias para compreender onde a variabilidade é absorvida com segurança e onde transborda.

    Do conceito à execução, a construção de resiliência deve avançar em três camadas complementares. No projeto, a engenharia de fatores humanos prioriza interfaces de navegação e painéis de máquinas com hierarquia de alarmes, legibilidade sob carga e redundâncias funcionais que minimizam erros em aproximação, manobra e emergência; a manutenção baseada em condição evita falhas previsíveis e libera margens operacionais em janelas críticas. Na operação, escalas compatíveis com limites de fadiga, turnos que considerem picos de demanda cognitiva e pausas breves em momentos de maior carga preservam o julgamento; checklists úteis (não inflacionados) e briefings objetivos reduzem ruído e alinham o time em transições de estado. Na governança, o SMS deve transformar não conformidades e observações em ações corretivas rastreáveis, com debriefings pós-operação curtos e frequentes, vinculados à atualização de procedimentos e treinamentos.

    A aplicação diligente das diretrizes de fadiga inclui políticas claras de horas de trabalho e descanso, mecanismos de reporte sem punição, sinais precoces padronizados, ferramentas de mapeamento e redistribuição de tarefas em picos de carga. Isso requer que auditorias internas verifiquem a aderência prática (ex.: registros consistentes com a realidade de bordo) e que revisões gerenciais corrijam fatores sistêmicos como dotação insuficiente e cronogramas de manutenção que comprimem descanso. A consequência é tangível: menos erros induzidos por exaustão, decisões mais prudentes e maior estabilidade operacional. A orientação da IMO fornece elementos funcionais de referência, que devem ser traduzidos em listas de verificação, matrizes de impacto e exercícios periódicos, com lições aprendidas fechando o ciclo. Em frotas com alto grau de automação e integração de dados, esse componente é determinante para evitar perda de controle operacional por eventos digitais.

    Recomendações práticas e acionáveis

    Ao aplicar esses passos, organizações tendem a reduzir incidentes ligados a fadiga, encurtar tempo de resposta a desvios, estabilizar cronogramas e melhorar a moral da tripulação:

    1.  Alinhe SMS e MLC 2006 em um único mapa de conformidade e risco humano. Trate direitos como controles de risco;
    2. Crie um programa de aprendizagem rápida pós-evento. Em 15 dias, gere síntese aplicável, ajuste procedimento e treine onde o trabalho acontece;
    3. Invista em liderança de convés e de terra para gestão de carga emocional, coesão e comunicação sob pressão;
    4. Estabeleça buffers operacionais mínimos por tipo de porto e operação. Proteja tempo e mantenha margens de manobra explícitas;
    5. Meça adaptação bem-sucedida. Inclua indicadores de antecipação, absorção e aprendizagem no comitê executivo.

    Resiliência no setor marítimo não é um slogan sobre força individual. É uma competência organizacional que se constrói nas escolhas de design de gestão, nos buffers que preservam o julgamento humano e nos ciclos de aprendizagem que transformam variabilidade em desempenho. Onde a organização aprende e se adapta, a operação prospera.

    Referências Bibliográficas:
    Hollnagel, E. Resilience Engineering. 2020. Ham, D.H. et al. Safety-II and Resilience Engineering in a Nutshell. 2021. Patriarca, R. et al. An Analytic Framework to Assess Organizational Resilience. 2017. IMO. Guidelines on Fatigue. MSC.1/Circ.1598. 2019. ILO. Maritime Labour Convention, 2006. 2024. Brooks, S. et al. Mental health and wellbeing of seafarers: systematic review. 2022. MAIB. Safety flyer e Relatório Anual 2024. 2025. ABS. Maritime Cybersecurity Updates. 2025. Alvarez & Marsal. Maritime cyber resilience amid digitization. 2025.

    Publicado por Porto Quântico

    Este artigo integra o Boletim de Bordo, publicação oficial da Porto Quântico. Nosso compromisso é unir evidências científicas, práticas organizacionais e narrativas culturais para transformar a economia do mar de dentro para fora.

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